11.06.2011
Gosto de pensar que somos como casas em construção. Que todos nascemos com um terreno e com um projecto. E que crescemos com alicerces, paredes, chão, canalizações e todas essas coisas.
O meu testemunho pode ser um pequeno resumo desse projecto…
Sei bem que os meus alicerces são os meus pais, o meu irmão e a minha família mais próxima. E fico mesmo grata sempre que penso no quanto me deram em todos estes anos. As coisas bonitas que me mostraram e ensinaram, as oportunidades que me deram de aprender aos bocadinhos o Mundo, mesmo quando eu não percebia que estava a crescer assim. A história da minha família, que é tão bonita, é também parte desses alicerces. E eu sou resultado de todas estas coisas.
Há depois o que nos reveste: as paredes! Os amigos com que nos forramos como pessoas. E até ai tive sorte. A juntar aos alicerces fortes, tenho paredes bem firmes e, acima de tudo, coloridas. São as cores dos escuteiros, as cores dos amigos de sempre e dos que se juntam, as cores da música, as cores de todos os (muitos) projectos em que me envolvo, as cores de pessoas que realmente deixaram e deixam marcas.
E um jardim. Há também um jardim à minha volta, no terreno do que sou e ainda além desse terreno. Um Mundo de coisas por viver ou apenas por observar. Jardim para sentar, para aventuras, para descobrir novos amigos que trazem cores e força às paredes, para passar lá temporadas ou simplesmente para olhar! Um jardim que me liga aos outros.
E podem agora perguntar o que é que isto tem a ver com a noite de hoje. Realmente, podia não ter nada a ver. Não fosse eu ter descoberto que andei uns anos valentes a viver no alpendre! Sim, a minha casa tem um alpendre, com vista boa! E o tempo, a maior parte das vezes, é ameno… e dá para adormecer a ver as estrelas. Tenho que admitir que não viveria nada mal até ao fim dos meus dias assim. No alpendre, encostada às paredes, segura pelos alicerces e de olhos no jardim.
Mas, pelos vistos o projecto, o meu projecto, incluía chave de Casa. E descobri-a há uns meses, na ida a Taizé, num dos passeios pelo “jardim”. Depois disso, foi o rodar da chave a o empurrar da porta de Casa. Foi isso que me trouxe aqui. Sabem, acho que pode não ser assim tão óbvio que as casas sejam feitas para se entrar… Eu estava muito bem cá fora, para quê entrar? Para quê entrar em mim quando o jardim é tão bom horizonte e a casa é tão bom ponto de partida para o Mundo, mesmo que a partir do alpendre?
Mas encontrei a Chave, que mais podia fazer? Entrei e descobri muita coisa. Descobri que os alicerces são os mesmos e as paredes também… Melhor, agora consigo vê-los de forma ainda mais especial, acreditem. Do lado de dentro. Do lado mais perto do coração. E do lado de dentro do coração, encontrei novas formas de usar tudo o que aprendi ao longo destes anos. Novas formas de usar a música, novas formas de usar as palavras e os gestos.
Ao entrar descobri também que as paredes têm janelas. Nunca me tinham feito falta, do lado de fora. Mas acho que sempre as olhei com alguma curiosidade. E, com ajuda preciosa, abriram-se de par em par, cheias de significados de luz… são textos antigos, são rituais, são palavras, são músicas, são exemplos, são pessoas, são conversas… um toque de luz que dá sentido ao entrar em Casa, para ficar mais perto de mim. Como nas janelas, há uma luz que entra, preenche e me faz ver melhor quem sou. Mas também há um apelo a sair e a viver a vida lá fora.
A Casa não é só feita de alicerces, paredes e janelas. E é engraçado que, às vezes, preciso que me apontem o que há lá dentro para conseguir ver. E sim, há pelo menos uma mesa. Grande e pequena. Tão grande que cabem todas as pessoas do Mundo. E tão pequena que cada convidado consegue sentar-se à distância exacta (e ínfima) de uma oração d’Aquele que distribui a refeição. E também é por isso que aqui estamos todos, nesta noite.
E foi isto que descobri… Sei que com a maioria de vocês a história foi diferente. Que enquanto a vossa casa se construía fizeram visitas regulares, de Chave na mão. E que sabiam que era um lugar para vocês. Que sabiam que aqui, onde estamos hoje, é também um vosso lugar. Se não me tivessem deixado brincar, durante anos, naquele bocadinho de jardim onde encontrei a Chave, não teria oportunidade de falar disto. Os projectos de cada um são realmente diferentes…
Hoje nós dissemos que sim, que temos essa Chave na mão... Mas entrar em Casa não é passar a viver só em Casa. O jardim continua lá e as cores e cheiros do Mundo são promessa de vida.
Encontrar a Chave, que é Deus, não nos leva a fechar portas mas sim a abri-las… leva-nos a procurar mais. A perceber que outras portas, para além da do nosso coração, se abrem.
Agora só não durmo no alpendre. E não perdi nada, até porque a minha casa não tem telhado e continuo a poder adormecer a ver o Céu.
Haverá melhor horizonte para sonhar e viver a vida?